Cultura e Música Afro Brasileira - Arte e Música - Anos Finais e Ensino Médio
A marca africana na cultura brasileira é marcante e se faz presente nos costumes, nas vestimentas, nas danças, na culinária, no folclore, na religião e, de forma especial, na música.
Artes na Sala de Aula
CULTURA E MÚSICA AFROBRASILEIRA
Entre os séculos XVI e XIX, estima-se que cerca de 23 milhões de africanos escravizados foram levados para diversas partes do globo, dos quais entre 3,5 e 3,6 milhões vieram para o Brasil. Vindos de variadas regiões da África, eles pertenciam a múltiplas etnias e culturas.
Mesmo retirados de suas terras, separados de seus familiares e submetidos ao processo de aculturação imposto pelos senhores e pela Igreja Católica, esses povos resistiram à anulação e reconstruíram suas identidades na nova terra.
A marca africana na cultura brasileira é marcante e se faz presente nos costumes, nas vestimentas, nas danças, na culinária, no folclore, na religião e, de forma especial, na música. Antiga e extremamente rica, a música africana tinha papel predominantemente religioso, sendo empregada em rituais ou como ferramenta de comunicação para transmitir tradições e valores às gerações mais jovens.
Uma de suas características marcantes da música africana é a polirritmia — a execução simultânea de ritmos variados —, o que conferi grande complexidade às composições. Além do uso ostensivo do canto, os africanos desenvolveram inúmeros instrumentos musicais, sobretudo de percussão, como o Atabaque, o Berimbau, o Reco-reco, o Agogô e o Afoxé.
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Durante o Período Colonial e ao longo do século XIX, a cultura europeia conseguia ter mais prestígio no Brasil do que a africana. Diversas manifestações de origem africana foram banidas, o que obrigou esses povos a praticarem suas tradições clandestinamente ou a adaptarem suas crenças. A cultura afro só ganhou maior visibilidade a partir do século XX, embora ainda enfrente preconceitos na atualidade.
Diversos ritmos do país receberam influência africana direta, a exemplo do Samba, do Axé, do Maracatu, do Choro, do Coco e do Jongo. O Samba foi o primeiro desses gêneros a obter aceitação entre as elites brasileiras, surgindo da união de ritmos portugueses com o Lundu africano — este último vindo de Angola e tocado com instrumentos musicais como Rabeca, Reco-reco, Maracas, Bandolim e Cavaquinho. O nome "samba" deriva do termo angolano semba, que significa "umbigada". Estilos como o Choro, a Bossa Nova e o Maxixe também têm raízes em gêneros africanos como o Lundu.
Por fim, a própria Capoeira — praticada em todo o país e acompanhada principalmente pelo Berimbau — combina luta, dança e música, exercendo forte impacto na nossa sonoridade. Adaptada no Brasil como forma de resistência física e de preservação da identidade dos africanos escravizados, a Capoeira permanece como um dos maiores símbolos dessa herança.
Texto adaptado.
Significado:
Aculturação: é o processo de transformação e adaptação sofrido por um indivíduo ou grupo social ao entrar em contato direto e contínuo com uma cultura diferente, resultando na absorção, fusão ou modificação de hábitos, valores e costumes.
ATIVIDADE INTERPRETATIVA - CULTURA E MÚSICA AFROBRASILEIRA
Público-alvo: Anos Finais (Interdisciplinar: História e Artes)
Foco: Análise Crítica e Interpretação.
1. Identifique os principais estilos musicais brasileiros que foram influenciados pela música africana e descreva suas características.
2. Interprete a relação entre a música africana e os rituais religiosos de seus povos de origem.
3. Justifique a afirmação de que a cultura afro-brasileira ainda enfrenta preconceitos nos dias atuais.
4. Comente sobre a importância da capoeira como forma de resistência cultural dos africanos no Brasil. De que maneira ela contribuiu para a preservação da identidade africana?
5. Compare a valorização da cultura africana e da cultura europeia durante o Período Colonial no Brasil. Quais foram as consequências dessa diferença de valorização?
6. Defina o conceito de "Polirritmia" e explique sua relevância na música africana. Como isso se reflete na música brasileira?
7. Ao ler os trechos textuais abaixo, responda:
Música “Angola, Congo, Benguela Monjolo, Cabinda, Mina Quiloa, Rebolo Aqui onde estão os homens Dum lado cana de açúcar Do outro lado o cafezal Ao centro senhores sentados Vendo a colheita do algodão tão branco Sendo colhidos por mãos negras (...)” (Zumbi - Jorge Ben Jor) | Poesia
“Vou m’embora pra um quilombo, Nada de chicote no lombo; No quilombo eu sou livre, Não tenho senhor, não” (trecho da obra Cinco Cantigas para você contar - Inaldete Pinheiro de Andrade) |
a) Em sua opinião, quais emoções e ações são expostas nas duas canções?
8. O Samba, um dos gêneros mais populares do Brasil, surgiu da união de quais elementos?
9. A partir de qual período a cultura afro-brasileira começou a ganhar maior visibilidade e destaque no cenário nacional?
10. De acordo com o texto, a música africana tradicional não servia apenas para o entretenimento. Quais eram as funções principais dessa música e como ela auxiliava as gerações mais jovens?
"Diferente dos pintores estrangeiros do século XIX que olhavam o negro como 'objeto de estudo' ou exotismo, Heitor dos Prazeres — que também era compositor e sambista — pinta a cultura afro-brasileira a partir de dentro, como sujeito ativo da modernidade carioca."
Com base na leitura das obras artísticas acima, responda:
11. Diferencie o olhar dos pintores viajantes do século XIX (como Rugendas) do olhar de um artista negro e sambista do século XX como Heitor dos Prazeres na representação da cultura afro-brasileira.
ATIVIDADE CONTEXTUALIZADA - CULTURA E MÚSICA AFROBRASILEIRA
Público-alvo: Ensino Médio (Interdisciplinar: História, Sociologia e Artes)
Foco: Análise Crítica, ENEM e Vestibulares
Questão 1: Resistência Cultural e Agência Histórica (História e Sociologia)
Texto de Apoio: "Arrancados de suas nações, separados de suas famílias e expostos à aculturação imposta pela Igreja Católica e por seus senhores, eles não se deixaram anular, reconstruindo suas identidades no novo ambiente."
No debate historiográfico contemporâneo, a ideia de que as populações escravizadas foram meras "vítimas passivas" do sistema colonial foi superada. Com base no texto e em seus conhecimentos sobre a formação da sociedade brasileira:
A) Explique como a prática clandestina e a adaptação de ritos religiosos/culturais revelam o conceito de agência histórica e resistência cultural dos povos africanos.
B) Diferencie o conceito de aculturação forçada da reconstrução de identidade vivenciada pelos africanos no Brasil.
Questão 2: Etnocentrismo e Complexidade Estética (Artes e Sociologia)
Texto de Apoio: "As polirritmias, ou seja, vários ritmos diferentes tocados ao mesmo tempo, eram muito presentes, o que muitas vezes tornava as músicas bastante complexas. [...] De maneira geral a cultura europeia era muito mais valorizada na época colonial e no século XIX no Brasil..."
A desvalorização das expressões musicais africanas no Brasil colonial e imperial esteve atrelada ao etnocentrismo europeu, que frequentemente classificava a arte não ocidental como "primitiva".
A) Tendo em vista a definição de polirritmia, desconstrua o mito de que a música africana era "simples" ou "rudimentar".
B) De que forma a transmissão oral da música e dos ritos atuou como um mecanismo de preservação da memória coletiva em um contexto de dominação colonial?
Questão 3: Do Marginal ao Nacional: A Trajetória do Samba (História e Cultura)
Texto de Apoio: "O primeiro estilo musical que foi aceito pelas elites brasileiras foi o samba. Este estilo musical nasceu da fusão de ritmos portugueses com o Lundu africano. E seu nome é inspirado em uma palavra de origem angolana, 'semba'..."
Historicamente, práticas de matriz africana (como a batucada e a capoeira) sofreram forte criminalização no Brasil pós-Abolição (especialmente no Código Penal de 1890). Contudo, ao longo do século XX, o samba passou por um processo de ressignificação, tornando-se o "símbolo da identidade nacional".
A) Analise as contradições sociais presentes no fato de o samba ter sido perseguido pelo Estado nas primeiras décadas do século XX e, posteriormente, elevado a símbolo oficial da brasilidade.
B) Qual foi a contribuição do Lundu e da raiz linguística Kimbundu (semba) para o processo de formação desse gênero musical?
Questão 4: Capoeira e a Luta pelo Patrimônio Imaterial (História e Direitos Humanos)
Texto de Apoio: "Além de ser utilizada para defesa física, a capoeira foi uma forma de resguardar a identidade dos escravos africanos."
Em 2014, a Roda de Capoeira foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. No entanto, no século XIX e início do século XX, os capoeiristas eram perseguidos e associados à vagabundagem e à desordem pública.
A) Como a capoeira articula corpo, música e territorialidade como estratégia de sobrevivência e preservação da subjetividade da população escravizada?
B) O que a transformação da capoeira de "crime" em "Patrimônio da Humanidade" revela sobre as disputas de memória na história do Brasil?
Questão 5: Desafios Contemporâneos e Racismo Estrutural (Sociologia Política)
Texto de Apoio: "Somente no século XX é que a cultura afro passou a ter um maior destaque e mesmo assim ainda sofre muitos preconceitos até os dias atuais."
Embora a contribuição africana seja inegável e celebrada no âmbito das artes e da culinária, manifestações de matriz africana (especialmente na religiosidade) ainda enfrentam episódios recorrentes de intolerância e violência no Brasil atual.
Relacione a marginalização histórica vivida pela cultura africana nos séculos XVIII e XIX com o conceito de racismo estrutural/religioso na sociedade brasileira contemporânea.
Questão 6: O Afro-Modernismo e a Celebração do Samba
Texto de Apoio: "Diferente dos pintores estrangeiros do século XIX que olhavam o negro como 'objeto de estudo' ou exotismo, Heitor dos Prazeres — que também era compositor e sambista — pinta a cultura afro-brasileira a partir de dentro, como sujeito ativo da modernidade carioca."
A) Diferencie o olhar dos pintores viajantes do século XIX (como Rugendas) do olhar de um artista negro e sambista do século XX como Heitor dos Prazeres na representação da cultura afro-brasileira.
Gabaritos
ATIVIDADE INTERPRETATIVA - CULTURA E MÚSICA AFROBRASILEIRA
Possível resposta: Estilos como samba, maracatu e choro foram influenciados pela música africana, apresentando ritmos contagiantes, uso de instrumentos de percussão e uma forte conexão com a dança e a celebração.
Possível resposta: A música africana estava intrinsecamente ligada aos rituais religiosos, servindo como uma forma de comunicação espiritual e de transmissão de valores culturais e sociais entre as gerações.
Possível resposta: Apesar do reconhecimento crescente da cultura afro-brasileira, ainda existem estigmas e discriminações que limitam a plena aceitação e valorização dessa cultura na sociedade, refletindo um legado histórico de racismo.
Possível resposta: A capoeira serviu como uma forma de resistência física e cultural, permitindo que os africanos mantivessem suas tradições e identidades em um contexto de opressão. Ela combina música e dança, reforçando a cultura africana.
Possível resposta: A cultura europeia era mais valorizada, levando à proibição de práticas africanas e à necessidade de adaptação forçada. Isso resultou em uma cultura híbrida, mas também em um legado de preconceito e marginalização da cultura africana.
Possível resposta: Polirritmia é a combinação de vários ritmos diferentes tocados simultaneamente. Essa técnica é fundamental na música africana e se reflete na complexidade rítmica de estilos brasileiros, como o samba e o maracatu.
Resposta Pessoal: Porém, pode ser a escravidão, tortura e liberdade.
Possível resposta: Ritmos portugueses com o Lundu africano.
Possível resposta: A partir do século XX.
Possível resposta: A música tinha um papel predominantemente religioso (usada em rituais) e servia como uma ferramenta de comunicação. Ela auxiliava as gerações mais jovens na transmissão de tradições, valores e ensinamentos culturais.
Possível resposta:/Pessoal: Os viajantes do século XIX olhavam para as expressões negras com distanciamento documental, etnocêntrico ou exótico. Já Heitor dos Prazeres, como integrante e criador dessa cultura, pinta o negro com altivez, elegância, protagonismo e alegria, valorizando a vivência periférica e urbana sem o estigma do sofrimento escravo.
ATIVIDADE CONTEXTUALIZADA - CULTURA E MÚSICA AFROBRASILEIRA
Gabarito e Critérios de Correção (Para o Professor)
Questão 1
A) Agência Histórica: Espera-se que o aluno identifique que os escravizados não acataram passivamente a dominação. Ao praticarem suas tradições escondidos ou ressignificando seus cultos (sincretismo), eles exerceram agência, ou seja, atuaram como sujeitos ativos da própria história, criando estratégias de negociação e resistência simbólica.
B) Aculturação vs. Reconstrução: A aculturação forçada diz respeito à imposição violenta da cultura dominante (catolicismo, normas europeias). Já a reconstrução de identidade refere-se à capacidade inventiva das populações negras de recriar suas práticas no novo contexto, mesclando elementos de diferentes etnias africanas e europeias para formar a cultura afro-brasileira.
Questão 2
A) Desconstrução da "simplicidade": O aluno deve destacar que a polirritmia exige alto nível de técnica, escuta coletiva e precisão matemática/métrica, pois sobrepõe pulsações e tempos distintos simultaneamente. A visão eurocêntrica desvalorizava essa complexidade por não seguir as estruturas harmônicas e de notação ocidentais.
B) Transmissão Oral: Em sociedades onde a escrita ocidental não era a via primária de preservação, a oralidade e a prática musical/religiosa funcionavam como "arquivos vivos", garantindo a continuidade de valores, visões de mundo e histórias das ancestralidades.
Questão 3
A) Contradição Social: O aluno deve problematizar a apropriação cultural e a construção da identidade nacional: o Estado e as elites perseguiram e criminalizaram os sujeitos produtores do samba (a população negra das favelas e cortiços), mas "higienizaram" e cooptaram a manifestação cultural quando lhes conviesse para vender uma imagem de "brasilidade mestiça" (especialmente no Período Vargas).
B) Contribuição do Lundu e Semba: O Lundu trouxe a matriz rítmica, o gingado e instrumentos como a rabeca e percussões; a palavra semba (umbigada) resgata o caráter comunitário e de dança de roda tradicional angolana que deu origem à estrutura e ao nome do samba.
Questão 4
A) Corpo, Música e Territorialidade: A capoeira mascarava o treinamento de autodefesa física sob a forma de dança e música (o ritmo do berimbau alertava e ditava o tom da roda). O espaço da roda era um território sagrado de liberdade onde a subjetividade, o respeito e a memória eram resguardados.
B) Disputas de Memória: Demonstra que o valor cultural não é estático, mas resultado de lutas históricas travadas pelos movimentos negros. A oficialização como Patrimônio representa a vitória da resistência popular sobre o apagamento estatal e elitista.
Questão 5
Racismo Estrutural: A resposta deve articular que o preconceito atual não é um fato isolado, mas herança direta do projeto colonial e escravocrata que associou os saberes e cultos africanos ao "inferior", "diabólico" ou "primitivo". A persistência do preconceito demonstra como as estruturas de poder históricas continuam a operar, marginalizando os símbolos de matriz africana enquanto consome sua música de forma comercial.
Questão 6
Possível resposta:/Pessoal: Os viajantes do século XIX olhavam para as expressões negras com distanciamento documental, etnocêntrico ou exótico. Já Heitor dos Prazeres, como integrante e criador dessa cultura, pinta o negro com altivez, elegância, protagonismo e alegria, valorizando a vivência periférica e urbana sem o estigma do sofrimento escravo.






